Trabalho com autonomia – publicado no Vanzolini em Foco nº 56

Multinacional compra a briga de mudar modelo de gestão e, depois de enfrentar dificuldades, começa a colher benefícios. O melhor é que os funcionários também saem ganhando

Foi em 1997 que o executivo Carlos Atílio G. de Azevedo teve o primeiro contato com o modelo de gestão semiautônoma. A essa altura já havia adquirido uma vivência de organização do trabalho em fábrica e estava convicto de que o modelo taylorista/fordista era ultrapassado. O projeto não vingou, mas nem por isso o executivo desistiu da idéia. “Fiz a primeira e grande descoberta: aquele projeto era meu e não de minha equipe. Quando precisei faltar a uma reunião, o grupo de concepção simplesmente implodiu. Tive que recuar, pois o grupo não tinha comprado a proposta”, explica.

O executivo retomou a ideia quando foi contratado pela Kimberly-Clark, uma multinacional americana presente no Brasil desde 1996 com uma linha completa de produtos de higiene pessoal e doméstica, e que atua, ainda, no segmento institucional. Segundo Azevedo, que ocupa o cargo de diretor de operações da empresa, em sua operação no Brasil, ela cresce através de aquisições, e sua fábrica principal (de um conjunto de seis), no município de Suzano, interior de São Paulo, havia sido originalmente uma organização familiar. “O que me chamou a atenção é que na Kimberly-Clark, a tecnologia envolvida no processo é muito grande e, no entanto, havia uma organização do trabalho bem convencional.”

Dessa vez, com o aprendizado anterior, não embarcou numa canoa furada. Montou um plano detalhado para chegar à gestão semiautônoma, pois sabia que, pelo desafio tecnológico e pela falta de habilitação técnica dos funcionários, não daria para pensar na mudança imediatamente. Primeiro a empresa investiu em treinamento. De 1999 a 2003/2004, os operadores obtiveram capacitação técnica numa parceria com o Senai. “Foi muito investimento, mas conseguimos manter as pessoas. Hoje, tirando o caso de aumento de capacidade dos últimos dois anos, o resto da nossa equipe de operação é a mesma. E vários seguiram estudando”, diz.

20082015-solução-VF-56--600

Em 2003, o modelo começou a ser implantado na fábrica de Suzano. Para elaborar o piloto, Azevedo recorreu aos consultores que o haviam auxiliado na experiência anterior, Roberto Marx, professor-doutor do Departamento de Engenharia de Produção da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, e Felipe Cortoni, professor da Fundação Vanzolini e dono de uma empresa de consultoria na área. “O grupo semiautônomo é um conceito cuja ideia é focar a autonomia, a iniciativa, o aumento da responsabilização por parte de quem opera sistemas de produção em qualquer âmbito, não só fábricas”, esclarece Roberto Marx. O professor cita duas etapas nesse modo de gestão: a de modelagem e a de implantação. “Na primeira a gente tem uma visão de como a organização do trabalho deve ser. Esse projeto não se restringe somente a discutir a parte fabril, mas sim toda a empresa. Porque para fazer esse tipo de mudança, o resto da organização tem que responder. Na segunda ocorre a implantação, que tende a ser por etapas. A consultoria vai se desligando aos poucos, pois a empresa pode continuar o projeto sozinha”, diz.

A mudança na Kimberly-Clark tem cerca de um ano e meio, e enfrentou vários percalços. O maior desafio até agora, segundo Azevedo, foi ter pessoas qualificadas, com responsabilidade e autonomia para tomar decisões. “Finalmente as coisas começam a se ajustar, porque a dificuldade não é só de um grupo, é para todo mundo. Antes o operador tinha um chefe a quem jogar a responsabilidade, agora ele não tem”, afirma. Para o diretor, outro problema foi o estabelecimento de indicadores ligados à produtividade, eficiência, processo, e também à qualidade, à segurança, ao meio ambiente.

Desde meados do ano passado o projeto foi expandido para uma segunda fábrica e no início desse ano para uma terceira unidade. “Acredito que o modelo tem início, mas não tem fim. É um aprendizado constante. Já temos planos de rever a parte de cargos e salários.”


Ganhos para a empresa e para os funcionários

Segundo o professor-doutor do Departamento de Engenharia de Produção (Poli-USP) Roberto Marx, o grupo semiautônomo é um conceito simples. “A ideia é privilegiar, em vez do controle de como as pessoas trabalham, o controle sobre resultados. A autonomia é uma forma de melhorar resultados. De um lado a empresa abre espaço para as pessoas decidirem sobre um rol de aspectos e por outro lado essas pessoas em equipe têm que atingir certas metas”, afirma Marx. Entre os ganhos, ele cita:

  • Para a empresa: é um modelo de gestão que dá liga às iniciativas e às vontades estratégicas de como envolver as pessoas. Proporciona melhoria de resultados, de qualidade, de eficiência.
  • Para os funcionários: é um diferencial para a carreira, amplia conhecimentos e as chances de se empregar em outros lugares. Esse esquema de trabalho é considerado uma boa prática, em linha com a última palavra em termos de gestão.

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *