Qualidade e certificação de empresas de software

Artigo aborda a evolução do setor de software, no qual a criatividade e a inovação são características intrínsecas, e como a certificação pode ajudar pequenas empresas da área a demonstrar sua capacidade de fornecimento de produtos e serviços 

 PorMarcelo Pessôa, Sarah Kohan e Airton C. Gonzalez

10072015-ISO-600

A qualidade é uma das características críticas para a competitividade das empresas. Os conceitos da qualidade evoluíram ao longo do tempo, passando de uma visão exclusiva das características de fabricação do produto para uma visão sistêmica pela qual a qualidade é praticada por todos e principalmente com o foco voltado para a satisfação do cliente. O produto, assim, deixa de ter a “sua própria qualidade”, mas esta passa a ser a sua capacidade de atender às expectativas do cliente.

Com efeito, entende-se hoje a qualidade como o grau no qual um conjunto de características inerentes a um produto, processo ou serviço satisfaz a requisitos (necessidades ou expectativas implícitas ou explícitas de clientes).

O setor de software, indústria bem mais recente que a manufatura, também evoluiu profundamente desde a fase em que o seu desenvolvimento era considerado arte, sendo agora um dos setores mais robustos e dinâmicos da economia. É um setor no qual a criatividade e a inovação são características intrínsecas. A presença do software no dia a dia das pessoas e das organizações é absoluta. Essa evolução tem sido acompanhada pelo desenvolvimento de conhecimento, técnicas, métodos e processos que lhe dão suporte, enriquecendo a própria engenharia de software.

O setor de software tem buscado diversas alternativas para tratar o tema da qualidade, razão pela qual a engenharia de software tem consagrado a abordagem por processos. A abordagem por processos vem se desenvolvendo e sofisticando, e resulta em vários modelos de referência que estão em uso, sendo que a implementação efetiva dos processos pode ser verificada mediante usuais avaliações e auditorias e pode-se mesmo atestar publicamente a efetiva implementação dos processos, por meio de uma certificação. O primeiro modelo nesse sentido que se notabilizou foi o CMM (e depois CMMI). Porém, modelos como o CMMI são mais apropriados para uso em grandes projetos e grandes empresas e não se mostraram adequados para pequenas organizações que desenvolvem software.

Em 2012, a ISO publicou as primeiras de uma série nova de normas, especificamente desenvolvidas para as micro e pequenas empresas até 25 pessoas (MPE) fornecedoras de software, a Norma ABNT NBR ISO/IEC 29110-4-1 (certificável), e suas normas de apoio. Essas normas estabelecem as referências para aplicar nos processos de desenvolvimento e fornecimento de software e são explicitamente elaboradas para atender às necessidades e características das MPE. A expectativa da ISO para essa série de normas é, similarmente ao que ocorreu com as normas da série ISO 9000, que se convertam em uma referência internacional para esse mercado.

Essa série de normas vem preencher uma lacuna existente, pois pequenas empresas de software não tinham uma forma de demonstrar sua capacidade de fornecimento de produtos e serviços por meio de algum tipo de certificação, embora no Brasil e em outros países houvesse iniciativas locais nessa direção. A NBR ISO/IEC 29110-4-1 tem validade internacional e pode ser reconhecida em qualquer parte do mundo.

Para se certificar na Norma NBR ISO/IEC 29110-4-1, a empresa deve implementar os processos PM e SI abaixo descritos:

  • PM – Project Management – tem como propósito estabelecer e manter sistematicamente as tarefas de gerência de projeto, visando os objetivos da qualidade, tempo e custo.
  • SI – Software Implementation – cujo propósito é realizar sistematicamente as atividades de análise, projeto, construção, integração e testes para um novo software, evolução ou manutenção, de acordo com os requisitos especificados.

Para uma empresa se certificar, os processos acima devem ser implementados e uma certificadora, como a Fundação Vanzolini, deve ser contatada para realizar a certificação. O certificado de conformidade é um documento que declara que os processos da empresa estão alinhados com a Norma NBR ISO/IEC 29110-4-1 e possui validade de três anos. A certificação é feita por intermédio de uma auditoria inicial e com acompanhamento anual para verificar se os processos continuam sendo seguidos.

A equipe da Fundação Vanzolini acompanha os trabalhos de desenvolvimento de diversas normas tanto no âmbito da ABNT como na ISO, para as normas internacionais. Particularmente, este trabalho para a série NBR ISO/IEC 29110 tem sido acompanhado desde o início, contribuindo com o conhecimento e experiência em avaliações de conformidade de acordo com as melhores práticas internacionais. Essa série de normas está sendo muito bem aceita em países como Canadá, Irlanda, Espanha, Peru, México, Tailândia e Japão, já que todos esses países têm implementado programas com base nessa série de normas para ajudar as empresas a aumentarem a sua competitividade e, portanto, ajudar a fortalecer a indústria de software nos seus países.

A Fundação Vanzolini vem comprovando que a adoção desse padrão normativo pelas empresas desenvolvedoras de software, por meio da implementação dos processos de Gerenciamento de Projetos e de Implementação do Software, promove uma melhoria no atendimento aos requisitos negociados com o cliente bem como na maturidade do processo interno da empresa, e que com a certificação as empresas têm o reconhecimento no mercado nacional e internacional de seus produtos de software.

A Fundação Vanzolini possui mais de 20 empresas certificadas em conformidade com a NBR ISO/IEC 29110-4-1, e a expectativa é que esse número aumente de forma exponencial considerando que há o apoio da ABNT e do Sebrae para o Brasil participar ativamente do desenvolvimento da norma e para implementação e certificação das empresas.

 


Marcelo Schneck de Paula Pessôa é engenheiro eletrônico, mestre, doutor e livre docente pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (EPUSP). Professor do Departamento de Engenharia de Produção da EPUSP desde 1987, foi diretor presidente da Fundação Vanzolini no período 2002-2005 e depois membro do Conselho Curador da instituição. Desde 2010 é presidente do Conselho Curador. Na Fundação Vanzolini, é também coordenador dos cursos: Especialização em Gestão da Tecnologia da Informação e Capacitação em Análise de Negócios.

Sarah Kohan ébacharel em Ciência da Computação pelo Instituto de Matemática e Estatística da USP. Mestre em Engenharia de Software pelo IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas. Implementadora e Avaliadora Líder do MPS.BR e Instrutora dos cursos de Introdução ao MPS.BR e Curso de Implementação credenciada pela SOFTEX. Auditora das Normas ABNT ISO/IEC 29110, GoodPriv@cy, ABNT ISO/NBR ISO 9001.

Airton C. Gonzalez é engenheiro de formação Mecânica de Máquinas, com MBA em Gestão de Negócios. Com a carreira inicialmente direcionada para o desenvolvimento de produtos, processos e serviços, com o foco na melhoria contínua, ampliou sua experiência gerenciando uma unidade de manufatura e serviços na Alemanha. Atualmente é gerente de certificação da Diretoria de Certificação da Fundação Vanzolini, para o programa de certificação da NBR ISO/IEC 29110-4-1.

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