Pequenas empresas, grandes inovações

Os pequenos negócios podem ser não apenas geradores de emprego e amortecedores de crises, mas também vanguardas em organização e tecnologia

 

por João Amato Neto

Segundo o Sebrae, no Brasil existem 6,4 milhões de estabelecimentos, dos quais 99% são micro e pequenas empresas, que respondem por 52% dos empregos com carteira assinada no setor privado. Os dados não são privilégio do Brasil, mas acompanham várias economias desenvolvidas ou emergentes. Chega a ser impressionante o paralelo com os Estados Unidos. Lá existem 5,7 milhões de firmas, das quais 90% têm até 20 empregados. A quase totalidade da economia norte-americana é composta de empresas com até 500 funcionários, que geram metade dos empregos no setor privado (dados do Small Business & Entrepreneurship Council).

As pequenas e médias empresas (PMEs) são estratégicas: facilitam o processo de mudanças estruturais, propiciam lastro de estabilidade da economia e constituem, na realidade, o principal respaldo comercial dos valores do ambiente de livre mercado no qual se desenvolve toda a atividade econômica da maior parte do mundo. As PMEs muitas vezes apresentam bom desempenho em mercados pequenos, isolados, despercebidos ou “imperfeitos”. Tal fato ocorre principalmente devido ao fato de a pequena empresa encontrar espaços mercadológicos para progredir nos chamados interstícios ou nichos de mercados locais ou regionais, espaços estes que são deixados pela grande empresa. Além disso, a pequena empresa sobrevive por estar mais perto do mercado e responder de maneira mais rápida e inteligente às mudanças que nele ocorrem.

A pequena empresa, diante das dificuldades e oportunidades que encontra, é naturalmente criativa na busca de novos produtos, métodos de produção, mercados e fontes de matérias-primas. Por falar em dificuldades, é alta a taxa de mortalidade dos pequenos negócios: afinal, 27% das empresas paulistas fecham durante o primeiro ano de atividade. A maioria das PMEs não se encontra em bom cenário, seja em termos de técnicas de organização e produção, seja quanto à precariedade e volatilidade dos empregos e à dificuldade de acessar mercados para além de sua localidade.

Por isso, o impulso inovativo das PMEs e seu potencial inclusivo na geração de emprego e renda dependem de respaldo institucional que as leve para o palco onde estão as grandes pequenas empresas de sucesso: ocupando os nichos mais dinâmicos da economia, desenvolvendo inovações revolucionárias, trabalhando de forma experimentalista e descentralizada.

Aqui, na dimensão institucional que dá respaldo para que as pequenas empresas cresçam e apareçam, qualquer dicotomia simplista é desafiada: Estado versus mercado, público versus privado, competição versus cooperação, local versus global.

Não basta ao Estado apostar no paradoxo de criar mais órgãos para desburocratizar a abertura e o fechamento dos pequenos negócios. As PMEs precisam sobreviver e crescer, não em tamanho, mas principalmente em inovação e valor produzido. Estão à espera de capacitação profissional, consultoria em inovação tecnológica e organizacional e oferta de crédito. Em troca, só esses negócios podem oferecer uma expansão qualificada do mercado, da qualidade de vida e do desenvolvimento local.

O Estado não tem capacidade de conhecer e planejar tudo. Precisa desenvolver parcerias com as próprias empresas para ajudá-las a diagnosticar seus erros, oportunidades e entraves. A empresa, de seu lado, precisa de instrumentos para aprender a rever suas estratégias e abrir novos canais com fornecedores, compradores e, sobretudo, concorrentes.

As pequenas empresas são especialmente eficazes na geração de inovações, pois devido a suas estruturas naturalmente enxutas e seus processos minimamente formalizados, elas estão permanentemente operando nos moldes de laboratórios, realizando experimentos, muitas vezes por tentativas e erros. Nesse contexto ocorre frequentemente o aprendizado por experiências.

 

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Mas Schumpeter ensinava que inovar não é só criar um produto ou aperfeiçoá-lo, criar um método de produção, abrir um novo mercado, conquistar uma nova fonte de mão de obra ou de matérias-primas, mas também criar uma nova forma de organização dos negócios. Aqui se insere a chave não só da sobrevivência, mas também da competitividade das PMEs: as redes de cooperação produtiva, que juntam em um só arranjo institucional o público e o privado, sem hierarquias rígidas, mas com coordenação afinada. A pequena empresa só inova quando cercada de suas concorrentes, trocando conhecimentos e juntando esforços, enraizando no local a sinergia para crescer até o global. As redes de cooperação bem-sucedidas envolvem não só as pequenas empresas, mas também universidades de ponta, institutos tecnológicos, associações civis e o governo em suas diversas esferas.

Concorrência cooperativa ou cooperação competitiva são o paradoxo e a solução. As redes de cooperação produtiva permitem combinar competências e utilizar know how de várias empresas. Possibilitam dividir o ônus de realizar pesquisas tecnológicas, compartilhando o desenvolvimento de produtos e processos e os conhecimentos adquiridos. Os riscos e custos de explorar novas oportunidades são partilhados quando se realizam experiências em conjunto. Com suporte para especializarem-se, mas também para experimentarem, as empresas da rede podem oferecer uma linha de produtos de qualidade superior e mais diversificada, ao mesmo tempo que dividem recursos, com especial destaque aos que estão sendo subutilizados. Juntas, as empresas em rede fortalecem o poder de compra diante de fornecedores e obtêm mais força para atuar nos mercados internacionais.

Ao lado dos arranjos produtivos locais e das redes virtuais de cooperação, as pequenas e médias empresas estão adentrando a economia sustentável, ocupando nichos como a reciclagem e a remanufatura. Assim, além dos parques tecnológicos e incubadoras de empresas, surgem ecoparques, ambientes de negócios em que o foco é a gestão ecoeficiente dos recursos: energia, água, materiais, infraestrutura. As pequenas empresas aproveitam as vantagens geográficas para, além de sobreviverem e inovarem, criarem alternativas de produção ambientalmente responsável. Mais uma inovação.


João Amato Neto é professor titular e chefe do Departamento de Engenharia de Produção da Poli-USP, onde coordenou o 3º Seminário Internacional de Inovação na Pequena e Média Empresa.

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