Lógica econômica na gestão da produção (Vanzolini em Foco nº 54)

O início do século 21 vem sendo marcado pelo desenvolvimento da esfera das finanças, cuja lógica passa a definir novos referenciais para os tomadores de decisão das empresas produtivas

 

por Mauro Zilbovicius

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Até os anos 1990, a gestão e a organização da produção eram aspectos das empresas produtivas que funcionavam com regras próprias. O conjunto de conhecimentos teóricos e práticos da Engenharia de Produção oferecia possibilidades de solução para os mais variados problemas nesse campo. Por outro lado, a esfera econômica e financeira das empresas era gerida por especialistas na área. Os gestores da produção, evidentemente, avaliavam o retorno de investimentos e de projetos, mas a gestão cotidiana da dimensão “negócio” das empresas não cabia a eles. No entanto, a partir da virada do século ocorre, em escala global, um fortíssimo processo de desenvolvimento da esfera das finanças, cuja lógica fundamental passa a ser elemento definidor de novos referenciais para os tomadores de decisão, tanto em termos organizacionais, como nacionais ou supranacionais.

A hegemonia do campo financeiro aparece de vários modos (veja boxe Preponderância do campo financeiro), através da disseminação da ideia de geração de valor, expressão de uso corrente em todos os campos da atividade gerencial e na mídia especializada. “Valor para o acionista”, “valor para o cliente”, “fluxos de valor”, “cadeias de valor”, assim como “unidades de negócio”, passam a ser elementos do jargão organizacional, em níveis hierárquicos nunca vistos. A partir dessa mudança, a esfera da produção estaria subordinada a uma lógica externa a ela. Nem sempre a decisão no âmbito da produção, que, anteriormente, poderia proporcionar maior produtividade no uso dos recursos, implica maior geração de valor. Por outro lado, a geração de valor pode ser obtida através de operações de natureza puramente financeira, envolvendo a gestão do endividamento e alterações na estrutura do capital. Os gestores da produção dialogam com o detentor de capital e prestam contas a ele – sob a forma financeira líquida. Oportunidades infinitas de aplicação de capital se oferecem, surgindo e desaparecendo velozmente, ao detentor de capital, permanentemente preocupado com a gestão do risco e com o custo de oportunidade de suas aplicações.

Na gestão, há elementos (veja boxe Por dentro da organização) que tornam necessário tratar a empresa, essencialmente, como um processo de rentabilização / gestão do risco de ativos, tangíveis ou não, contabilizáveis ou não, para um agente externo, que tanto pode ser o acionista real ou o investidor potencial ou ainda o mercado financeiro como um todo.

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Mauro Zilbovicius é professor-doutor do Departamento de Engenharia de Produção da USP e membro do Conselho Curador da Fundação Vanzolini.

 

 

 

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